sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Os dois lados do Sistema Único de Saúde


O Sistema Único de Saúde surgiu graças a luta do Movimento de Reforma Sanitária Brasileira. O grupo, formado por sindicalistas da área da saúde, lutou para que na Constituição de 1988 a pasta fosse considerada um direito de todos e um dever do Estado, sob os princípios da integridade, universalidade e equidade. Eram pessoas com pensamentos mais à esquerda e que pretendiam alcançar a melhoria da qualidade de vida da população brasileira em um movimento inverso ao período de repressão da ditadura militar.
Pensado de forma interligada, o SUS tem como objetivo que a saúde pública respeite as necessidades individuais de cada cidadão utilizando o modelo de atenção integral. Isso significa que a saúde provida pelo Estado não decorre apenas do tratamento de doenças, mas também da sua prevenção, com a garantia de saneamento básico, o ensino sobre os princípios básicos de higiene pessoal, controle de pragas e vacinação. Além de garantir a qualidade de vida por meio de acesso à esportes e alimentação adequada. O investimento no programa é federal, o repasse de verbas é de acordo com a hierarquização do atendimento: os estados cuidam de casos de média e alta complexidade e os municípios do atendimento básico.
Desde que o SUS foi criado, o País reduziu em mais de 70% a mortalidade infantil, diminuiu a desnutrição, tem um dos maiores programas de vacinação infantil, para gestantes e idosos do mundo, além de erradicar a poliomielite (também conhecida como a paralisia infantil), o sarampo e a rubéola. A expectativa de vida do brasileiro também aumentou, hoje, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que a média é de 75,2 anos, sendo 78,8 anos para mulheres e 71,6 para homens.
Apesar dos avanços no que se refere a saúde da população brasileira, o SUS ainda enfrenta uma série de problemas de gestão, mal funcionamento e baixo investimento.
Em 2013, os gastos com saúde representaram 8% do PIB brasileiro, uma parcela equivalente a 424 bilhões de reais, mas só 3,6% do PIB partiu da iniciativa pública, ou seja, menos de 50% foi investido pelo governo – de acordo com o IBGE, em países ricos a parcela investida pelo governo é equivalente a 70% dos gastos e apenas 30% sai da iniciativa privada.
O gasto per capita também aponta uma diferença significativa. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil gasta cerca de 466 dólares por habitante, enquanto a média mundial é de US$ 571. Em países com a Noruega, por exemplo, os gastos do governo chegam a 6,8 mil dólares por habitante.
O Brasil também investe o dobro no tratamento de doenças do que o que gasta com a prevenção das mesmas. Em uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em 2011, 58,8% da população reclama do corpo médico dos hospitais, especialmente no que se refere a consultas básicas, 35,4% critica a demora do atendimento em postos de saúde e hospitais e 33,8% reclama da demora para conseguir consulta com especialistas. Todas as reclamações referem-se a área de prevenção e identificação de doenças.
Esse é um dos maiores problemas com o tratamento de câncer no Brasil, por exemplo. Como o diagnóstico demora muito para ser realizado, o paciente acaba desenvolvendo casos mais graves, isso implica num alto custo com o tratamento.
Outra particularidade brasileira é que o usuário que possui convênio médico particular tende a usá-lo somente para o atendimento básico. Os tratamentos de alta complexidade são feitos pelos SUS. Isso significa que o Estado realiza um subsidio indireto aos planos de saúde privados, já que quem paga pelo convênio deduz esse valor do imposto de renda, mas não consegue usá-lo para terminar o tratamento. O SUS, por sua vez, oferece um tratamento de alto padrão para casos como esses, arcando com os custos de cirurgias, remédios e recuperação física e psicológica.
 O Sistema Único de Saúde no Brasil é um projeto grandioso, considerado um dos maiores sistemas de saúde de mundo e que fornece uma série de tratamentos de alto padrão para doenças graves. Ainda assim, é necessário repensar a atual estrutura, que não atende de forma homogênea e igualitária a população brasileira. É preciso que se reavalie o grau de investimento público para que os gastos sejam aperfeiçoados e, assim, que cada cidadão tenha acesso ao direito constitucional de uma vida saudável.

www.fundacao1demaio.org.br

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