Segundo a Anistia Internacional e a Humans Rights Watch, a polícia brasileira é a que mais mata no mundo. Em 2014, foram registrados mais de 56 mil homicídios no Brasil, dos quais 15,6% foram cometidos por policiais. Em contrapartida, um levantamento feito pela Folha de São Paulo indica que um policial é morto a cada 32 horas no Brasil, a maioria acontece enquanto os policiais estão de folga e ficam mais vulneráveis a ações de criminosos.
O Brasil também está na quinta posição entre os países que mais gastam com a violência, atrás dos Estados Unidos, China, Rússia e Índia. O relatório da Institute For Economics and Peace (IEP), levantou que os custos da violência no Brasil, só em 2014, chegaram a somatória de 8% do PIB nacional, sendo que a parcela mais representativa esses gastos – cerca de 50% – está concentrada, justamente, em homicídios.
As soluções para a questão da violência no Brasil se dividem entre os que querem a desmilitarização da PM e os que reclamam da falta de investimento em segurança pública. Uma das propostas em trâmite no Senado, a PEC 51/2013, propõe a reestruturação do atual modelo policial e prevê a unificação da polícia em um modelo civil e de ciclo completo – isso significa que a mesma polícia seria responsável pela prevenção e pela investigação dos crimes.
Para que nos aprofundemos no tema, é preciso entender a atual composição policial e o modelo de ação das polícias militar e civil.
A Polícia Civil é de caráter judiciário. Isso significa que a função dessa categoria é de investigação criminal. A ação dos policiais civis começa depois que o crime acontece, coletando os primeiros dados por meio do boletim de ocorrência e, em seguida, abrindo um inquérito policial. Na inquirição, que é de responsabilidade direta do delegado, compete aos investigadores o recolhimento de provas e, à polícia cientifica, a realização de perícias e laudos. É uma polícia que trabalha de forma à paisiana, isso significa que ela não usa traje militar, mas roupa civil e, por isso, sua identificação é mais difícil. Hoje, o contingente da classe é de 117.642 policiais na ativa, quase ¼ do contingente da polícia militar.
A Polícia Militar, por sua vez, tem um caráter mais ostensivo e sua principal função é a manutenção da ordem pública. Com um contingente de 425.248 policiais na ativa, a PM é uma reserva das Forças Armada e, por isso, tem um limite de atuação. Não cabe à Polícia Militar, por exemplo, o processo de investigação, mas o patrulhamento, a identificação de suspeitos e a repressão de crimes em flagrantes. É uma polícia fardada e o uso do uniforme serve, justamente, para inibir a possível ação de criminosos e facilitar a sua identificação.
A unificação preveniria o corporativismo e a divisão de trabalhos entre as duas polícias, já que o atual modelo não favorece a integração das ações policiais. Isso se reflete, por exemplo, na resolução de casos de homicídios no Brasil: só 5% são solucionados, consequência da falta de equipamento e funcionários dentro da classe judiciária da polícia.
Mas existem entraves no que diz respeito à desmilitarização, um deles é o armamento da Polícia Militar. Por se tratar de um reserva das Forças Armadas, as armas utilizadas pelos militares deveriam ser recolhidas e competiria ao Estado o fornecimento imediato desse armamento. A Polícia Militar também é a única classe policial que está presente em todos os municípios brasileiros, representando 1 policial a cada 473 habitantes, enquanto a polícia civil tem um índice bem mais baixo, com 1 policial para cada 1709 habitantes.
A falta de investimento também é uma das bandeiras levantadas por quem é contra a desmilitarização. Enquanto a estimativa de gastos com saúde e educação chegaram 10% e 5,8% do PIB brasileiro em 2012, respectivamente, parcela destinada a segurança pública representava apenas 1,24%. Além disso, um estudo feito pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento sugere que cada dólar usado com a prevenção de crimes equivale a economia de seis dólares gastos com a repressão policial. Um investimento que poderia resolver de maneira mais efetiva os problemas com a segurança pública brasileira e que teria impacto ativo na ação da PM, já que compete a ela as duas funções apontadas no estudo: a prevenção e a repressão.
Ainda assim, o militarismo policial pode ser um problema quando o assunto é respeito aos direitos civis, inclusive dos próprios policiais. Uma pesquisa feita pelo Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas, da FGV de São Paulo, ouviu cerca de 21 mil profissionais de segurança pública, a maioria deles policiais militares. Destes, 38,8% afirmaram ter sido vítima de tortura psicológica ou física no treinamento ou fora dele, 64,4% se sentiram humilhados ou desrespeitados por superiores e 98,2% afirmaram que a formação e o treinamento são ineficientes.
A Anistia Internacional também aponta que as interversões policiais em periferias e comunidades mais pobres acabam resultando em execuções extrajudiciais e que a PM fere normas e protocolos internacionais para o uso da força e de armas de fogo, os maiores focos são nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Além disso, a Anistia também denuncia a impunidade dos crimes cometidos pelos policiais militares que, de forma sistemática, não os investiga.
O Brasil é 11º país mais violento do mundo, com taxas de homicídios que podem ser comparadas a de países em guerra. As polícias, que sofrem com baixos salários, capacitação ineficiente, falta de investimento e pouca integralidade enfrentam diversas limitações para cumprir seu papel: garantir o direito constitucional à segurança para o cidadão brasileiro.
Você acredita que a unificação das polícias é a solução para a violência no Brasil?
Fonte: www.fundacao1demaio.org.br














