Quantos casos de violência dentro dos estádios de futebol você já ouviu falar nos últimos anos? Ou torcedores e suas famílias que deixam de ir nos jogos de seus times por medo de brigas entre torcidas organizadas? Situações como essas não são novidade nos noticiários.
No último dia 16, um homem morreu espancado e apedrejado por membros de uma torcida organizada na zona norte do Rio de Janeiro, em uma briga entre torcidas do botafogo e flamengo, times que disputaram uma partida naquele mesmo dia. No mês anterior, a juíza Antonia Dilce Rodrigues Feijão decretou o fim das 3 maiores torcidas organizadas do Ceará, pedido feito pelo Ministério Público do Estado que acusou a Cearamor, a Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF) e a Torcida Organizada Jovem Garra Tricolor (JGT) de envolvimento em crimes de homicídio, lesões corporais graves, porte de armas, veículos roubados e depredação do patrimônio público e particular.
Em diferentes regiões do País, os relatos de violência durante os jogos de futebol acontecem de forma preocupante. Nitidamente, vemos ações sendo tomadas pelo poder público que embora tímidas são concretas e visam resolver a questão da violência no futebol, na medida em que os próprios times têm começado também a se mobilizar e se conscientizar sobre o problema.
O Projeto de Lei nº 3.083, em fase inicial de debate na Câmara dos Deputados, propõe a efetivação da norma que barraria a entrada de torcedores que possuem histórico de briga dentro dos estádios, visando coibir a violência nos estádios. Do ponto de vista dos clubes, o São Paulo Futebol Clube anunciou, no dia 8 de julho, que rompeu completamente qualquer contato com suas torcidas organizadas depois da comprovação do envolvimento de torcedores filiados na briga que ocorreu na quarta-feira anterior (6), durante jogo no Estádio do Morumbi, em São Paulo, deixando 19 pessoas feridas no confronto entre torcedores e policiais militares.
Acontecimentos como esses mudam o jeito com que é pensado o divertimento de acompanhar os jogos de futebol nos estádios, a falta de segurança deixa todos com receio de aproveitar uma atividade com o intuito de entretenimento para o cidadão. O Ministério Público e as autoridades responsáveis pela segurança pública questionam a importância e benefícios da existência das torcidas organizadas, por estarem associadas a grande parte da violência que ocorre nos estádios de futebol e seus arredores.
Estudiosos sobre a segurança pública voltada à prevenção da violência no futebol, como o pesquisador Felipe Lopes da Unicamp, recordam o risco de enxergar as torcidas organizadas como facções criminosas e defender o fim delas, por serem considerados também atores políticos e reivindicatórios dentro e fora do futebol. A torcida organizada, além de fiscalizadora das movimentações financeiras, cobra explicações das ações que envolvem seus clubes, e afirmam-se inclusive como atores políticos para além das arquibancadas, se posicionando como coletivos políticos dando voz ao seu público sobre as sociais que os atingem.
Além disso, a violência que existe e rodeia os estádios de futebol deve ser considerada dentro do contexto geral da realidade que vive a torcida frequentadora das partidas. A violência está também atrelada a questões macrossociais, ao tráfico e consumo de drogas, preconceitos de gênero e sexo, violência física, etc., são ações reflexo da vivência social dos torcedores trazidas e potencializadas pela euforia e fanatismo dentro das arquibancadas.
O pesquisador Felipe, em entrevista ao site da Fox Sports, defende que uma pequena minoria das torcidas organizadas se envolve nos casos de violência e o grande problema está na impunidade dos acontecimentos. O Estado não tem dado conta de punir os casos de violência e em 2014 e 2015, apenas 5% dos crimes no futebol foram punidos, de acordo com dados trazidos pelo sociólogo Mauricio Maurad (professor da Universidade Salgado de Oliveira), o que contribui para aumentar o sentimento revanchista entre torcidas que leva a retaliações e mais violência.
Para Murad, algumas propostas feitas pelo Governo Federal e o Ministério dos Esportes, como a criação de delegacias especiais e juizados de torcedores, estatutos de segurança nos estádios e maior responsabilização dos clubes, pressionando por maior organização para se envolverem na questão, são interessantes, mas precisam sair do papel. É preciso vontade para que essas mudanças ocorram e sejam colocadas em prática, lembra o sociólogo.
Para o promotor Paulo Castilho, em entrevista ao jornal BBC Brasil “o Estado nunca deixou de reprimir, faz inquérito, pede prisão, tem alguns condenados, mas isso não está sendo suficiente. A infiltração da torcida organizada está sendo maior”, disse ele. “A torcida organizada está ganhando poder, ela se impõe pela força e está fazendo mal para o futebol.” Já o sociólogo Maurício Murad para o Estadão disse “acho as organizadas muito importantes para o futebol. É o 12º jogador, é a responsável pelas alegorias, pela festa, pela criatividade.”, comenta. “O que nós precisamos é separar o joio, a erva daninha, do trigo.”
Na sua opinião, a torcida organizada é o principal fator para a violência no futebol ou essa violência também é um reflexo do cotidiano vivido pelos brasileiros?
Fonte: fundacao1demaio.org.br

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